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Crítica Literária: Somente o desnecessário

Atualizado: 5 de jan.

Quanto tempo você tem dedicado a atividades inúteis? Talvez sejam elas que vão te salvar.

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Confira a crítica literária: Somente o desnecessário a partir das obras A utilidade do inútil, de Nuccio Ordine publicada pela Editora Zahar, em 2016 e A vida não é útil, de Ailton Krenak publicada pela Companhia das Letras, em 2020.


Aprendemos desde muito cedo que devemos ter utilidade na vida e que esta é dada pela nossa profissão. Quando criança nos perguntam o que você quer ser quando crescer e a resposta é sempre uma atividade profissional, nunca algo pessoal, uma característica ou um valor. Quero ser profissão x.


Mas não somos nossa profissão, pelo menos não somos só isso. Somos diversos, complexos e podemos desenvolver diferentes interesses ao longo da vida e isso tudo vai nos formando, nos completando. Por isso, nem sempre tudo que fazemos ou sabemos vai servir para nosso trabalho ou ter uma utilidade qualquer.

"Equiparar o ser humano exclusivamente com sua profissão seria um erro gravíssimo: em todo ser humano há algo de essencial que vai muito além de seu próprio 'ofício'. [...] (sem o afastamento do utilitarismo) seria muito difícil, no futuro, continuar a imaginar cidadãos responsáveis, capazes de abandonar o próprio egoísmo para abraçar o bem comum, expressar solidariedade, defender a tolerância, reivindicar a liberdade, proteger a natureza, defender a justiça…" Nuccio Ordine

No livro A Vida não é útil, de Ailton Krenak, temos a transcrição de algumas falas do autor em lives realizadas durante a pandemia do Covid -19 no Brasil. Fundamentado por suas crenças e origem indígenas, ele traz reflexões motivadas também pela experiência de isolamento e adoecimento global.


Krenak, ao evidenciar como nossa sociedade tem valorizado mais o lucro do que qualquer outra coisa e feito o impossível para atingir metas de produção e venda, cada vez mais agressivas, afirma: "Não se come dinheiro". Conduzindo nosso olhar para aquilo que realmente importa – ou deveria importar – o planeta Terra, a natureza, os recursos naturais que nos mantém vivos (como a água e o ar) e principalmente, nós mesmos.

"Isso que as ciências política e econômica chamam de capitalismo teve metástase, ocupou o planeta inteiro e se infiltrou na vida de maneira incontrolável" Ailton Krenak

Esse caminho de consumo e produção nos distancia da oportunidade de aprendermos apenas para satisfazer uma desinteressada curiosidade ou para nos entretermos com algo diferente. Ter um passatempo, um tema de interesse livre pode nos ajudar a reduzir o estresse e a tensão da rotina.


Mas, cuidar do corpo e da mente, tem cada vez mais se tornado um luxo, um privilégio. E ainda, em alguns casos, só acontecem para melhorar a produtividade no trabalho. Ao afirmar que nos tornamos "Máquina de fazer coisas", Krenak cita os diversos avanços tecnológicos e o capitalismo como fatores que deram ao ser humano a ilusão de que ele pode ter e fazer qualquer coisa.


Perdemos a noção do nosso tamanho e relevância no mundo, ignoramos a imensidão do Planeta e sua existência há bilhões de anos antes de nós. A natureza tem seu funcionamento próprio e é capaz de seguir independente do ser humano, entretanto estamos afetando tanto esse organismo, vivo e independente, que talvez, os efeitos cheguem a ser irreparáveis.

"Transformando os seres humanos em mercadoria e dinheiro, esse mecanismo econômico perverso deu vida a um monstro impiedoso e apátrida, que acabará por negar às futuras gerações qualquer forma de esperança" Nuccio Ordine

Na obra Utilidade do Inútil, Nuccio Ordine, aborda a gana pela utilidade no recorte da cultura, principalmente na literatura e educação. De forma clara e um tanto sarcástica, ele destaca como o saber cultural, seja ler um livro, ouvir uma música, fazer uma pesquisa, tudo passou a ser primariamente definido por um objetivo. Vou ler porque quero aprender tal coisa que vai me ajudar no trabalho e por consequência posso ganhar mais.


Dessa forma, pessoas que não compreendem tais interesses, livres de utilidade, questionam e até criticam a "perda de tempo" com coisas que não trarão retorno financeiro. Contaminando e desestimulando o prazer pelo conhecimento livre, que pode inclusive surpreender com a descoberta de habilidades que antes não conhecíamos.

"As religiões, a política, as ideologias se prestam muito bem a emoldurar uma vida útil. Mas quem está interessado em existência utilitária deve achar que esse mundo está ótimo: um tremendo shopping" Ailton Krenak

Lembro, como exemplo, um curso sobre botânica que fiz há alguns meses. Foi comum me perguntarem se eu ia mudar de profissão por conta do curso… E nas aulas, o professor compartilhou o quão comum é para ele ouvir dos alunos a pergunta: "Para que essa planta serve?". Parece que nossa busca por utilidade inclui tudo e todos.


Talvez porque nos acostumamos desde sempre a tratar as plantas como coisas e passamos a usá-las para um fim do nosso interesse. Esquecendo que são seres vivos e seu valor é dado pela sua existência, pelo que são. O que nos leva de volta ao texto de Krenak que diz, com razão, "A Vida não é útil".



Quanto vale consumirmos tanto do planeta e de nós mesmos? Nossa falta de pausa, contemplação e silêncio nos impossibilitam de pensar, de nos conectarmos com o que realmente importa. Nessa confusão damos valor ao que não tem e desperdiçamos recursos finitos: como a nossa saúde, tempo e a natureza.


Querer dar uma utilidade para tudo, nos torna alienados como máquinas programadas para seguir o sistema. Muitos privilegiados reclamam de uma vida em que só trabalham para pagar boletos, mas, muitas vezes, se recusam a desligar as telas para caminhar ao ar livre ou então a levar uma vida mais simples que exige menos recursos para manter.

"Aparecer é mais importante que ser: o que se mostra – do automóvel de luxo ao relógio de grife, do cargo influente a uma posição de poder – vale muito mais que a cultura ou o próprio nível de formação" Nuccio Ordine

Ao refletir sobre isso, vale lembrar da enorme desigualdade em nosso país, em que muitos lutam para sobreviver, mas essa pobreza também é fruto de uma busca desenfreada pelo ter. Situação que há séculos alguns poucos concentram riquezas em detrimento de milhares que produzem muito, ganhando pouco ou quase nada.


Nesse contexto, o natural, o fruir da vida, a essência que nos mantêm vivos, unidos e verdadeiramente humanos é cada vez mais deixado de lado. E o que se mantém são apenas relações de poder e interesse, que fundamentam cada vez mais a nossa sociedade.

"O pensamento vazio dos brancos não consegue conviver com a ideia de viver à toa no mundo, acham que o trabalho é a razão da existência. Eles escravizaram tanto os outros que agora precisam escravizar a si mesmos" Ailton Krenak

Krenak, assim como Ordine, alerta sobre como a educação segue reproduzindo esse modo de viver, formando apenas profissionais e não pessoas. Com valores e objetivos fundados na busca de uma profissão e de uma utilidade da vida. É claro que precisamos ter uma profissão e trabalhar, mas a educação também deveria servir ao desenvolvimento crítico, sensibilidade artística, conhecimento e respeito pelo outro e o Planeta. Formando cidadãos mais conscientes e capazes de enfrentar as complexidades da vida.


Segundo Ordine, a educação também serve à ditadura da utilidade, com algumas escolas e universidades se tornando indústrias de diploma, uma vez que estes possibilitam empregos melhores. Assim, pouco importa a trajetória de estudos, a dedicação, as descobertas e experiências do aluno, o que vale é ganhar a nota necessária para seguir adiante e garantir o diploma no final.


Nesse contexto, até grandes clássicos da literatura passam a ter sua utilidade questionada. Para o autor, a experiência de leituras de obras consagradas, por vezes extensas e um pouco difíceis, vêm sendo deixadas de lado, sendo trocadas por resumos que já apontem os principais temas da obra, seu sentido e aplicações atuais. O que, além de privar o leitor do contato direto com uma obra original, ainda retira dele a autonomia de tirar suas próprias conclusões e construir suas próprias relações.

"As instituições de ensino deveriam se dedicar ao cultivo da curiosidade" Nuccio Ordine.

No mesmo caminho, pesquisas científicas também são afetadas ao já nascerem visando resolver um problema na sociedade. Não há pesquisa livre, desinteressada que possa talvez, quem sabe, resultar em uma descoberta (como as coisas aconteciam no passado). Projetos já nascem com um objetivo traçado e cabe ao jovem cientista realizar uma investigação até chegar na solução certa, ou seja, aquela mais útil às empresas que financiam a pesquisa.


Assim como não nos permitimos não fazer nada – para não encararmos o tédio e nossos pensamentos – também não nos permitimos fazer alguma coisa por fazer. Emendamos uma tarefa na outra e só paramos por exaustão ou obrigações do cotidiano como comer e dormir um pouco.


Nesse fluxo, nos afastamos de tudo aquilo que poderia nos acrescentar, transformar e tornar a vida mais proveitosa. Seguimos consumindo muito, o que nos faz ter de produzir cada vez mais, o que, por consequência, degrada cada vez mais a natureza – seja pelo uso dos recursos ou pelo lixo que depositamos nela. Tudo isso compromete nosso tempo e saúde, nos mantendo num círculo vicioso.


"É nas dobras daquelas atividades consideradas supérfluas que, de fato, podemos encontrar o estímulo para pensar um mundo melhor, para cultivar a utopia de poder atenuar, se não eliminar, as injustiças que se propagam e as desigualdades que pesam (ou deveriam pesar) como uma pedra em nossa consciência" Nuccio Ordine

E o que trago aqui, não se trata de abandonar tudo e ir viver no mato (apesar de, às vezes, dar vontade), mas sim de criar espaços na rotina para pensar sobre o que realmente importa, rever estilo de vida e redefinir prioridades. Talvez salvar aquele tempo que some quando você está rolando a tela do celular, para ouvir seus pensamentos e respirar, seja um importante primeiro passo.

"Nesse sentido, considero útil tudo o que nos ajuda a nos tornarmos melhores". Nuccio Ordine

Crítica Literária: Somente o desnecessário

Deixo aqui o link para compra das obras e ainda ajudar o Raízes: A utilidade do inútil e A vida não é útil, na Amazon.

 
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Obrigada por ler! 🤓


Espero que tenha gostado e se inspirado a ler o livro.


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Nos vemos no próximo texto 🥰



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