Resenha do Livro: A Outra Garota Negra, de Zakiya Harris
- Adriana Ferreira

- 12 de dez. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 9 de mar.
Uma história de suspense, obsessão e paranoia que trata de questões como privilégio, raça e gênero em estruturas de poder essencialmente brancas.

Resenha do Livro: A Outra Garota Negra, de Zakiya Dalila Harris, com tradução de Flávia Rössler e Maria Carmelita Dias, publicado pela editora Intrínseca, em 2021.
Quando um potencial aliado se torna inimigo, aflora a decepção ou desejo de vingança?
Nella Rogers, a protagonista, é uma assistente editorial negra, dedicada e esforçada, que sofre com limitações por preconceitos de cor e gênero num contexto que privilegia pessoas ricas, influentes e brancas. Fora do trabalho, é uma ativista da luta contra o racismo e por mais igualdade social, o que a faz pensar que, diante de tantos desafios a serem superados em sociedade, poder estar naquele ambiente já é, de certa forma, uma conquista.
Primeiro romance da escritora norte-americana Zakiya Dalila Harris, lançado em 2021, apresenta uma história de suspense e thriller psicológico, na qual, por não sabermos quem é o inimigo, todos são suspeitos. De forma astuta e criativa, Harris nos prende nesse universo para abordar questões sérias como racismo, machismo, misoginia, manipulação e ganância.
Relações interpessoais e a autoestima
Sofrer microagressões diárias por preconceito, discriminação e racismo, fez com que Nella Rogers se adaptasse ao seu meio. Consciente de como se formam e funcionam estruturas de poder em seu trabalho, formado por pessoas brancas e ricas, acreditava que estar ali já era algo muito especial. Da mesma forma, sabia o quão fácil poderia perder sua posição.
Isso fazia com que, mesmo diante de injustiças e abusos por parte de sua chefe, não reclamasse, se mostrando sempre disposta e agradecida pelo trabalho. Quando, em lampejos de coragem, decidia conversar e pedir por novos desafios e condições de trabalho, aceitava rapidamente a condição mais submissa a qual era colocada, por ainda ser uma assistente iniciante que não conquistou seu espaço.
Se enfrentar os problemas de discriminação do seu cotidiano significasse prejudicar sua carreira, que tanto batalhou para conseguir e sonhava permanecer e crescer, optava por se resignar e se manter no emprego. Afinal, estava em uma grande editora, responsável pela publicação de seus livros preferidos, e que admirava muito.
Nesse contexto, Nella avançava e retrocedia em sua carreira, convivendo com a impressão de estar há anos no mesmo lugar, sem perspectivas concretas de ser reconhecida e promovida. A solidão e insegurança nesse contexto eram enormes, e por isso, quando viu que uma nova colega, negra como ela, chegou ao escritório, sentiu suas esperanças renovarem.
Teria ali uma aliada, uma espécie de cúmplice e confidente, que entenderia o que ela sente e passa diariamente em um ambiente totalmente preenchido por pessoas brancas.
Contudo, a realidade foi bem diferente da expectativa.
A outra garota negra, Hazel, chegou confiante, ciente também do jogo de poder e racismo existentes no local, mas com outra estratégia de enfrentamento. Apesar de se dar bem com Nella e ter com ela várias afinidades, optou por: “jogar o jogo”. Escondendo suas opiniões, crenças e valores — ou fingindo que eles não existiam — foi fazendo amizade e servindo às suas lideranças, como se não houvesse diferenças entre eles, como se ela também fosse uma pessoa branca.
Sua postura audaciosa e segura fez com que ela rapidamente ganhasse espaço, reconhecimento e oportunidades que Nella tanto almejava e há tempo se dedicava para conseguir.
Aqui, a história começa a ter uma reviravolta importante, em que a autora mescla a complexidade das relações interpessoais com como a autoestima e confiança são afetadas pelo convívio com o racismo. Ao mesmo tempo, cria um ambiente de mistério, num jogo entre passado e futuro, bilhetes com ameaças e uma sensação de perigo constantes.
Metáforas e fantasias para tratar de assuntos sérios
Para apontar processos de manipulação, autossabotagem e submissão, criativamente a escritora traz para a história um elemento importante: uma pomada para cabelo.
O cabelo de pessoas negras possui especificidades de tratamento e cuidados, por vezes desconhecidos ou inacessíveis para algumas pessoas, e o uso de produtos inadequados pode acarretar problemas no couro cabeludo e fios. E por isso, a tal pomada é tão relevante.
Na história, o produto é milagroso, criado para o cabelo de pessoas negras, produzido artesanalmente e com ingredientes naturais — mas vem sem rótulo.
Misteriosamente, o uso da pomada, que se chama Amaciada, está relacionado a um comportamento mais brando, resignado e compreensível das pessoas negras que a usam.
Ao utilizar uma característica física tão simbolicamente importante para pessoas negras, como os cabelos, Harris deixa claro como a manipulação pode acontecer por meio dos pontos mais vulneráveis e aparentemente inofensivos.
Acontecimentos do passado também surgem para trazer outras camadas à história: heróis viram bandidos, crimes e injustiças começam a aparecer e o clima de suspense permanece até o final.
Uma sátira em forma de suspense para fazer pensar sobre o racismo
Desde o cenário da empresa majoritariamente branca, que contrata uma pessoa negra e passa a se apresentar como diversa e inclusiva, até a resignação pelo excesso de trabalho e medo de perder o emprego, são formas de mostrar o racismo e suas diversas manifestações no ambiente de trabalho.
Nella vive muitas situações de estresse, insegurança e solidão no trabalho, incompreendida pelos colegas e gestores, que não percebem o quanto são constantemente racistas e cometem diariamente microagressões “sem intenção”.
A autora também ressalta a individualidade das pessoas negras, ao colocar duas mulheres negras protagonistas em conflito. Contrariando a visão comum de que por se tratarem de pessoas negras, elas seriam amigas e aliadas, evidenciando como cada uma tem sua personalidade, forma de pensar e agir.
Outra questão abordada é o relacionamento inter-racial, por meio do namoro de Nella com um homem branco. Juntos, eles se apoiam e aprendem juntos, ficando clara a importância de pessoas brancas buscarem se informar e se prepararem para lutar contra o racismo.
Uma leitura instigante desde o início, com capítulos que intercalam narradores, passado e presente e nos mantêm no suspense até o final. Recomendo!
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Quem escreve
Adriana Ferreira é de Campo Bom, no Rio Grande do Sul. Formada em Comunicação Social, com especialização em Jornalismo Digital e mestranda em Processos e Manifestações Culturais, com bolsa CAPES e pesquisa nas áreas de literatura, feminismo e interseccionalidade. Idealizadora do Raízes, é quem escreve e publica resenhas, críticas literárias, artigos sobre mercado editorial, dados do livro, incentivo a leitura e mais. Membro fundadora e responsável pela comunicação da Associação Literária de Campo Bom.



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