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  • Foto do escritorAdriana Ferreira

Resenha do Livro: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

Atualizado: 21 de dez. de 2023

Brás Cubas narra sua vida, sem constrangimentos ou pudores, com a tranquilidade que só a morte pode garantir.

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Confira a resenha do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, lançado em 1808 e lido para essa resenha na publicação da Antofágica de 2011. ​​


O retrato de uma elite egoísta e carente de autocrítica


Quando Machado de Assis deu vida a Brás Cubas, o romance era um gênero em alta no Brasil. Normalmente produzido e consumido pela elite — única parcela da sociedade alfabetizada — com condições de ir até a Europa estudar.


Contudo, na época as narrativas costumavam retratar o cotidiano do Rio de Janeiro, descrevendo seu modo de vida, códigos e tradições, o chamado romance de costumes. Machado, porém, recusou esse formato e passou a narrar as assimetrias sociais e as contradições causadas por elas.


Criando personagens e situações que retratavam a realidade da sociedade brasileira do século XIX. Formada por um grupo privilegiado que se relaciona entre si, alimentando e expandindo os pensamentos e modos de ser desse mesmo grupo. Tudo as custas do povo mais humilde e trabalhador, principalmente negros escravizados.


A separação social não era evidente apenas nas roupas, falas ou costumes. Era também nas oportunidades e acessos. O futuro de cada um era determinado conforme a cor da pele, poder aquisitivo e nível de educação. O que assusta pela tamanha semelhança com nossa realidade no século XX.


Tema sensível e polêmico que também sobrevive ao longo dos anos é o racismo, fruto do período escravocrata contemporâneo de Machado. Bastante criticado por uma certa neutralidade frente à situação da escravidão, o autor imprime sua visão de mundo em sua obra de forma perspicaz.


A exemplo o capítulo “A Borboleta Preta”, em que com o uso de ironia e sutilezas ele deixa claro como a sociedade percebia e julgava pela cor. No relato, a borboleta é perseguida e morta por conta da crença de que sua cor trazia maus presságios: “creio que para ela era melhor ter nascido azul”, ele conclui.


Se por um lado parece que a culpa é da borboleta ter nascido preta, por outro, evidencia como eram enraizadas as crenças sociais, a ponto de haver uma certa descrença de que alguma mudança aconteceria por iniciativa da alta sociedade.


E esse é apenas mais uma nuance da genial escrita de Machado. Que apesar de ter tido a relevância de seu trabalho reconhecida ainda em vida, a compreensão de sua obra acontece anos depois, pelos estudiosos que se debruçam sobre seus escritos e desvendam novos significados.


“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas”.


Memórias Póstumas de Brás Cubas


Uma narrativa que prende e inevitavelmente nos provoca a pensar: “Será que, após a morte, conseguiremos lembrar com tamanha clareza de toda nossa vida?” Se sim, “Será que estaremos mesmo livres de qualquer julgamento, vergonha ou receio frente a revelação de toda nossa conduta?”.


Segundo Brás Cubas, sim. Lá onde está, nada mais pode atingi-lo.


“Mas, na morte, que diferença! Que desabafo! Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há plateia”.

Poderia essa revelação significar um estímulo para não levarmos a vida tão a sério e nos preocuparmos menos com certos detalhes morais?


Pelo que você quer ser lembrado?


O relato do defunto autor indica como as lembranças de nossas ações e relações seguem materializadas mesmo após a morte. Tanto na mente do defunto, quanto, provavelmente, na mente dos que seguem em vida.


E Brás Cubas, desde a infância, não deixava boas marcas por onde passava. Uma criança extremamente mimada pelo pai, que amorosamente suavizava seus erros. Um exemplo, quando já na adolescência se apaixonou e gastou muito dinheiro da família atendendo aos caprichos da namorada, seu “castigo” foi uma viagem de estudos à Europa! Pois é…


Durante os anos dedicados aos estudos, custeados pela família, Brás Cubas esforça-se o mínimo necessário para sobreviver e voltar com seu diploma. Sempre menosprezando o que estava vivendo e com expectativas no que estava por vir, em algo maior que achava merecer.


No retorno para o Brasil, traz na mala a vaidade e um diploma europeu. Agora, lhe restava casar e tornar-se um político de renome — planos que inicialmente não eram seus, mas que logo lhe pareciam dignos. Sem saber muito bem o que fazer ou para onde ir, o que surgisse servia, desde que tivesse a tal merecida notoriedade.


“No dia em que a Universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso”.

Uma trajetória de frustrações


Como uma eterna criança mimada, foi vivendo paixões que logo lhe desinteressaram. Experimentando trabalhos que logo não mais o satisfaziam. Tendo novas ideias que nunca se concretizaram. Talvez, porque o foco não estava no objetivo a ser realizado, mas sim no possível retorno que receberia pela sua realização.


Falta de autocrítica, cético quanto aos esforços necessários para construir uma trajetória profissional e boas relações, viveu na sombra do que os seus privilégios lhe davam acesso. Tinha uma boa casa, acesso à cultura e a alta sociedade. Contudo, era só isso.


Nas poucas oportunidades que teve de fazer algo relevante, como ajudar alguém necessitado, sua mesquinhez tomava conta e fazia o mínimo possível. Egoísta, achava que devia receber mais do que dar. Super valorizava suas pequenas ações, como um carinho no ego e um alívio para a consciência, em seus brevíssimos momentos de autoavaliação.


“Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes”.

Em suma: foi um homem branco, culto e de uma família da típica elite brasileira do século XIX (patriarcal, escravocrata e valorosa dos bons costumes). Que teve uma vida medíocre, alimentada por uma constante expectativa de fazer algo notável.


Após sua morte — e frustrado por não ter atingido seu principal objetivo em vida — acha oportuno registrar suas memórias em um livro. Devido sua condição privilegiada, não lhe preocupam os julgamentos ou críticas, nem lhe aflige o pequeno público que presume atingir.


Nesse romance, Machado nos apresenta um homem do seu tempo, que representa claramente a classe social a que pertence e os valores que partilhavam. Proporcionando uma viagem ao Rio de Janeiro do Século XIX, pela escrita sagaz, sarcástica e extremamente envolvente de um dos maiores escritores brasileiros.


Se você ainda não se aventurou nesse clássico, recomendo que o faça! :) Deixo aqui o link para adquirir o livro e ainda ajudar o Raízes: Memórias Póstumas de Brás Cubas, na Amazon.

 

Para conhecer mais sobre a obra de Machado de Assis:

Podcasts sobre o autor e sua obra:

Obras de Machado de Assis: acesse aqui.


 
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Obrigada por ler! 🤓

Espero que tenha gostado e se inspirado a ler o livro.

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Nos vemos no próximo texto 🥰



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