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  • Foto do escritorAdriana Ferreira

Reconhecimentos Literários: Academia Brasileira de Letras — Parte I

Atualizado: 21 de dez. de 2023

Fazer parte da Academia Brasileira de Letras e participar do seleto grupo de intelectuais, que se autointitulam imortais, é um importante reconhecimento literário dado pelo conjunto da obra e carreira de escritores nacionais. Será?

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Academia Brasileira de Letras - Sede RJ | Foto Reproduçnao Metropoles

Conheça aqui o funcionamento da Academia Brasileira de Letras, mais um Reconhecimento Literário do Brasil.


Uma Instituição privada, idealizada e fundada de forma independente por um distinto grupo de amigos e intelectuais da elite do Rio de Janeiro. Viva há mais de 100 anos, a ABL mantém o poder de definir, sob regras próprias, quem pode entrar nesse seleto grupo de imortais e representar o mais alto nível da produção literária no país. Conquistando ao longo dos anos notoriedade, respeito e influência para a participação em processos importantes relacionados à mudança e preservação do idioma nacional, como novo acordo ortográfico e criação de novas palavras. Como também a responsabilidade de deter, preservar e divulgar o mais rico acervo literário do país, que conta com materiais como originais de Machado de Assis.


Apesar de manter uma agenda movimentada de eventos acerca da literatura e cultura, atualmente a ABL passou a ser assunto também nas grandes mídias. Isso por anunciar a entrada de duas figuras populares para o tão seleto grupo: Gilberto Gil e Fernanda Montenegro. Mesmo com a inquestionável carreira e contribuição cultural dessas duas personalidades para nosso país, alguns questionamentos surgiram sobre a entrada deles para a academia.


Por um lado, houve comemorações pelo merecido reconhecimento e uma possível abertura da instituição, vista como tradicional e restrita, para a atualização de seus conceitos e regras de seleção. Afinal, a atriz e o cantor são artistas populares nacionalmente conhecidos por um grandioso trabalho artístico, distante do círculo da elite literária. Já, por outro lado, questionamentos surgiram sobre a legitimidade das escolhas, visto que ela retirava a oportunidade de importantes escritores e escritoras nacionais, com grande contribuições literárias.


Mas, qual a história por trás do notável grupo de 40 acadêmicos que formam a alta sociedade de intelectuais de nosso país?


 

Esse texto foi construído com base em pesquisa realizada no site da ABL, notícias, reportagens e conteúdos de outros portais, sobre a instituição e seus membros.

E pretende dar um panorama da Academia Brasileira de Letras, de forma clara e acessível, para quem gosta de literatura e quer aprender mais sobre a principal instituição do setor.


Para facilitar sua navegação pelo texto, deixo aqui os tópicos abordados com link de acesso rápido:

Devido à extensão do conteúdo, optei por dividi-lo em duas partes. Confira a parte dois aqui.

 

Como tudo começou- história da fundação da ABL


Fundada em 20 de Julho de 1897, a Academia Brasileira de Letras (ABL) se denomina uma instituição cultural e privada, que nasceu com o objetivo de cultivar a língua e literatura nacional.


A ideia da instituição nasceu em um grupo de amigos e escritores, que se reuniam regularmente para discutir literatura, na sede da Revista Brasileira, que desde 1895 funcionava sob a direção de José Veríssimo. Segundo registros da própria ABL, a partir da coesão do grupo e o sucesso da revista houve o estímulo para a proposição de uma academia literária nacional, a exemplo da Academia Francesa.


Foi Lúcio de Mendonça, advogado, jornalista, escritor e magistrado do STF que apresentou formalmente, em meados de 1895, a proposta de abertura da instituição que funcionaria sob gestão do estado. Entretanto, a proposta não foi aceita e o grupo decidiu por atuar de forma independente, criando a ABL como uma instituição privada. Assim, em 1896 começam a circular notícias sobre fundação da academia e encontros preparatórios começam a acontecer. Apesar de Machado de Assis ser um dos fundadores mais conhecidos atualmente, na época, Lúcio Mendonça foi denominado pelos outros fundadores como o principal idealizador e verdadeiro "pai da academia".


Após alguns meses de encontros para planejamento, a ABL é inaugurada em uma sala do museu Pedagogium, localizado na Rua do Passeio. A instituição optou por seguir os mesmos moldes da Academia Francesa e por isso, ficou definida a composição com 40 membros efetivos e perpétuos. Tendo presente 16 dos 40 acadêmicos que formavam o primeiro grupo de imortais. No ato, o primeiro presidente da instituição, Machado de Assis fez um discurso de abertura, seguido das falas de Rodrigo Otávio, 1º secretário, que leu a memória histórica dos atos preparatórios, e o secretário-geral, Joaquim Nabuco, que pronunciou o discurso inaugural.


Discurso de Machado de Assis na abertura da 1a sessão da ABL:


"20 de julho de 1897

Senhores,

Investindo-me no cargo de presidente, quisestes começar a Academia Brasileira de Letras pela consagração da idade. Se não sou o mais velho dos nossos colegas, estou entre os mais velhos. É simbólico da parte de uma instituição que conta viver, confiar da idade funções que mais de um espírito eminente exerceria melhor. Agora que vos agradeço a escolha, digo-vos que buscarei na medida do possível corresponder à vossa confiança.

Não é preciso definir esta instituição, iniciada por um moço, aceita e completada por moços, a Academia nasce com a alma nova, naturalmente ambiciosa. O vosso desejo é conservar, no meio da federação política, a unidade literária. Tal obra exige, não só a compreensão pública, mas ainda e principalmente a vossa constância. A Academia Francesa, pela qual esta se modelou, sobrevive aos acontecimentos de toda casta, às escolas literárias e às transformações civis. A vossa há de querer ter as mesmas feições de estabilidade e progresso. Já o batismo das suas cadeiras com os nomes preclaros e saudosos da ficção, da lírica, da crítica e da eloquência nacionais é indício de que a tradição é o seu primeiro voto. Cabe-vos fazer com que ele perdure. Passai aos vossos sucessores o pensamento e a vontade iniciais, para que eles o transmitam aos seus, e a vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira. Está aberta a sessão."

Fonte: Site ABL


O primeiro grupo de imortais


Identificados como fundadores da Academia Brasileira de Letras, o primeiro grupo de imortais foi formado pelos idealizadores e participantes das reuniões preparatórias que precederam a inauguração, sendo eles: Araripe Júnior, Artur Azevedo, Graça Aranha, Guimarães Passos, Inglês de Sousa, Joaquim Nabuco, José Veríssimo, Lúcio de Mendonça, Machado de Assis, Medeiros e Albuquerque, Olavo Bilac, Pedro Rabelo, Rodrigo Otávio, Silva Ramos, Teixeira de Melo, Visconde de Taunay, Coelho Neto, Filinto de Almeida, José do Patrocínio, Luís Murat e Valentim Magalhães. E demais membros que foram convidados a participar, a fim de formar 40 membros conforme a Academia Francesa que servia de molde para a instituição. Sendo assim, juntaram-se ao grupo: Afonso Celso Júnior, Alberto de Oliveira, Alcindo Guanabara, Carlos de Laet, Garcia Redondo, Pereira da Silva, Rui Barbosa, Sílvio Romero, Urbano Duarte, Aluísio Azevedo, Barão de Loreto, Clóvis Beviláqua, Domício da Gama, Eduardo Prado, Luís Guimarães Júnior, Magalhães de Azeredo, Oliveira Lima, Raimundo Correia e Salvador de Mendonça.


Cada membro da academia escolheu um patrono para homenagear figuras importantes que contribuíram para literatura e cultura antes da fundação da ABL. Assim, cada cadeira da academia carrega um número e o nome de um patrono homenageado. Na relação há nomes como José de Alencar, Castro Alves e José Bonifácio, veja aqui a lista dos 40 patronos da ABL.


Assim, em 20 de Julho de 1897 nasceu a ABL, formada por esse grupo de intelectuais da elite com sede no Rio de Janeiro, na época capital do país. Em um período em que a taxa de analfabetismo no Brasil ultrapassava 80%, segundo dados do censo realizado em 1890, cabe a reflexão sobre como a instituição cria um status para a literatura brasileira. A partir de um grupo seleto e escolhido sob suas próprias regras, dentre seus próprios círculos sociais. Grande parte da população da época nem sabia da existência da ABL, seja por viverem longe dos grandes centros (RJ e SP) ou pelo próprio analfabetismo.


Podemos pensar que a ABL, apesar de ter um papel importante na conservação da literatura e língua portuguesa, também retrata as diferenças sociais existentes em nosso país até hoje. Contribuindo, a partir da elitização da literatura pelos imortais, com a imagem de que a literatura está reservada aos intelectuais e não a grande massa de reles mortais, que formam grande parte da população brasileira.


Sede da ABL - Petit Trianon e o Palácio Austregésilo de Athayde


Apesar de fundada em 1897, a ABL passa a ter uma sede própria apenas em 1923. O Petit Trianon, prédio francês construído em 1922 no Rio de Janeiro, é uma réplica do prédio de mesmo nome, que fica no Palácio de Versalhes - França. Originalmente ele serviu como pavilhão da França na exposição internacional realizada em comemoração ao centenário da Independência do Brasil. Após uso na exposição, o imovel foi doado à instituição. O espaço é utilizado até hoje para as reuniões dos acadêmicos e sessões solenes.


O espaço compreende no primeiro andar:

  • O Salão Francês, local onde o novo acadêmico cumpre a tradição de permanecer sozinho, em reflexão, antes da cerimônia de posse iniciar.

  • O Salão Nobre, onde acontece a posse dos novos membros, às sessões solenes e as sessões ordinárias comemorativas.

  • A Sala Francisco Alves e a Sala dos Fundadores, contam em sua decoração importantes obras de arte e itens do acervo da ABL. Elas são utilizadas para eventos de lançamentos de livros dos Acadêmicos.

  • Sala dos Poetas Românticos, abre-se para o pátio onde estão os bustos de bronze dos escritores: Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Castro Alves, Fagundes Varela e Gonçalves Dias.

  • Sala Machado de Assis,organizada pelo acadêmico Josué Montello, abriga objetos pessoais do escritor.

Já no segundo andar do edifício encontra-se:

  • A Biblioteca Acadêmica Lúcio de Mendonça.

  • A Sala de Sessões que exibe a reprodução dos Estatutos da Academia, de 1897, assinados por Machado de Assis, Joaquim Nabuco e membros da primeira diretoria. Além de dois painéis com os retratos dos fundadores e dos patronos das 40 cadeiras da ABL.

  • Salão de Chá, onde os acadêmicos se reúnem às quintas-feiras para tomar um chá e discutir temas da instituição.

Em 1989 o então presidente da ABL, inaugura o Palácio Austregésilo de Athayde, que também se torna sede da instituição. O edifício de 29 andares, leva o nome do presidente, que lutou por sua construção. Seu objetivo era que a ABL tivesse uma sede imponente e fosse também a base do patrimônio da academia. O terreno da construção foi doado pelo governo e a obra realizada a partir de financiamentos. O aluguel das salas deste edifício, assim como outros imóveis no RJ também recebidos por doação, servem como a principal renda da instituição.


Confira aqui dois vídeos que mostram as estruturas da instituição:


Premiações promovidas pela Academia


Com o propósito de cultivar a língua e literatura nacional, a Academia Brasileira de Letras é um ambiente que estimula e promove trocas intelectuais, através de eventos, conferências e uma série de publicações. Além de preservar acervos com a memória da literatura brasileira, produzida por tantos acadêmicos que já passaram pela instituição.


E uma das diversas formas encontradas pela ABL, para reconhecer e incentivar manifestações culturais em seus iversos aspectos, foram as premiações. Desde 1909 a academia criou e distribuiu prêmios em diversas áreas: literatura, teatro, poesias, traduções, oratórias e tantos outros.


Em 1998, a ABL realizou mudanças no seu estatuto e deste então, as premiações foram reduzidas, passando a ser apenas: Prêmio Machado de Assis para conjunto de obras do escritor(a), título de maior reconhecimento, com premiação de R$100 mil ao vencedor. E os prêmios ABL de Ficção, Ensaio, Literatura Infanto-juvenil, Poesia, Tradução, História e Ciências Sociais, que escolhiam a melhor obra de cada gênero, publicada no ano anterior, com premiação de R$50 mil para cada categoria.


Porém, em 2016 uma nova alteração foi anunciada: todos os prêmios seriam unificados, sob o nome da premiação principal: Prêmio Machado de Assis. Dessa forma, a academia passou a premiar alternadamente escritores de literatura de outras áreas das ciências humanas, sempre de escritores brasileiros vivos, pelo seu conjunto da obra e com um prêmio de R$300 mil.


A mudança acontece um ano depois da polêmica envolvendo o Prêmio ABL de Poesia, que em 2015 não foi dado a ninguém. A academia disse na época, que nenhuma publicação do gênero no ano anterior conquistou os membros avaliadores. A decisão gerou críticas de especialistas e escritores do gênero, que alegavam haver sim obras de qualidade que mereciam receber o prêmio.


O fato é que, a Prêmio Machado de Assis em sua nova versão, só foi concedido em 2017, para João José Reis, referência mundial nos estudos da história e da escravidão. Depois disso a honraria foi suspensa, sob a alegação de falta de verba por conta da crise.

Após um hiato de 3 anos, o Prêmio Machado de Assis retornou em 2021 agraciando Ruy Castro, jornalista e biógrafo pelo conjunto de sua obra. A premiação de 2022 ainda não foi divulgada.

ABL Atualmente

Desde o início da pandemia, em 2020, a ABL fechou suas portas transferindo todos os seus eventos e sessões para o formato online.

O retorno das atividades presenciais aconteceu em Março deste ano, para a cerimônia de posse da nova diretoria e a premiação de Ruy Castro. Entretando, grande parte da agenda cultural da instituição permanece em formato híbirdo.

Você pode companhar novidades da ABL pelas redes rociais: Instagram, Canal no Youtube,Twitter. Ou pelo site: https://www.academia.org.br.

Lembrando que devido a extensão do conteúdo, optei por dividi-lo em duas partes. Confira a parte dois aqui.


 
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Obrigada por ler! 🤓

Espero que tenha gostado e se inspirado a quem sabe se inscrever na premiação! Para mais textos como esse, continue lendo a série Reconhecimentos Literários.

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Nos vemos no próximo texto 🥰



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