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Crítica Literária: Charles Darwin e A Origem das Espécies

Atualizado: 5 de jan.

Como um jovem estudante, encantado pela natureza, criou a teoria capaz de explicar a origem das espécies por meio da seleção natural.

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Confira a crítica literária a partir da obra A Origem das Espécies, de Charles Darwin, com tradução de Pedro Paulo Pimenta e publicado pela editora Ubu de 2018. ​​


Após o destino lhe surpreender com uma viagem a bordo do navio Beagle, o jovem Charles Darwin começaria a formular as questões de uma das teorias mais importantes da história da humanidade.


Durante a viagem, deslumbrado com o que via e movido pela curiosidade, tratou de coletar espécimes e registrar tudo em seu diário. Quando volta para casa está intrigado e sem saber o que fazer com tantas informações.


Foram anos de estudo, experimentos e trocas de impressões com outros cientistas ao redor do mundo, para formular a teoria da origem das espécies. Para depois, seguir incessantemente na busca de fundamentação para publicar aquilo que entendia ser uma ideia revolucionária.

Até que em 1859, já aos 50 anos e mais de 20 anos após a viagem no Beagle, Charles Darwin publica a primeira edição do livro Origem das Espécies por meio de Seleção Natural. Que segundo o autor, tratava-se de um resumo geral, escrito meio às pressas, da pesquisa a qual se dedicou por toda a vida.

Nesse artigo, passearemos pela ciência antes de Darwin e sua aventura a bordo do Beagle. Para então conhecermos a construção da sua obra, a Origem das Espécies, lida para esse texto em tradução do original.


A ciência antes de Darwin


Numa época em que a biologia ainda não era uma ciência, um jovem, sem saber o que queria fazer da vida, usufrui de seus privilégios estudando em uma boa universidade. Curioso, participava dos mais diversos grupos de estudo, lia muito, cantava e colecionava besouros.

No campo da ciência, ainda se acreditava na teoria funcionalista e a novidade era a invenção da Taxonomia, por Carolus Linnaeus. Até começar a surgir dúvidas sobre o funcionalismo e nascer os pensamentos sobre a evolução, alimentados com a descoberta de fósseis e o surgimento da paleontologia, por Georges Cuvier.


Nessa nova perspectiva de estudos passou-se a conhecer os seres vivos do passado. Ao mesmo tempo, em que a geologia chega para comprovar que a Terra existe a muito mais tempo do que se acreditava.

Nesse contexto, aquele jovem estudante recebe, por indicação de seu professor de botânica, o convite para uma viagem de exploração pela América do Sul. Como era culto, de boa família e muito interessado pela natureza, acreditou-se que ele seria uma companhia para o capitão, nos longos meses de viagem.


O pai do jovem demorou para aprovar a ideia, que julgava ser uma loucura aventureira. Mas, acabou não só autorizando como custeando todos os gastos do garoto. E assim, iniciou a jornada que transformaria aquele jovem estudante no cientista mais conhecido no mundo todo: Charles Darwin.


Filho de uma família culta e rica, teve condições para se tornar o gênio que se tornou. Começando pelo privilégio de viajar por quase 5 anos, movido por prazer e curiosidade.


Um passeio despretensioso, que anos depois o levaria a construção de sua importante teoria, começou assim: com o convite para uma viagem de navio.


A bordo do Beagle


Ao embarcar, Darwin tinha como função ser uma companhia para o capitão Robert FitzRoy, alguém com quem ele pudesse conversar em meio a solidão e estresse de meses em alto mar.

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HMS Beagle - Imagem da Internet

Darwin, porém, viu nessa viagem a oportunidade de estudos e exploração pessoal, e levou consigo sua biblioteca completa, com 245 livros. E desde o início, além de boas conversas com o capitão, observava, registrava e coletava plantas e animais por onde passavam.


Fato que o fez se tornar o naturalista da tripulação, assim que o naturalista oficial foi expulso do navio. A viagem do Beagle, durou 4 anos e 9 meses, tinha 70 tripulantes e 22 cronômetros a bordo. Durante o período, Darwin, coletou mais de 1500 espécies, algumas inéditas na Europa. Além de vivenciar acontecimentos que consideraria mais tarde, determinantes para a ideia base de sua teoria.


Como um terremoto no Chile, em que ele vê um fenômeno natural modificar um espaço geográfico inteiro; encontrar fósseis da megafauna que o fizeram refletir como e porque aqueles animais foram extintos; e encontrar tanta vida — animal e vegetal — nas ilhas Galápagos e pensar como isso era possível num lugar cheio de lava, com ondas violentas ao redor.


“Ninguém que reconheça a nossa profunda ignorância com respeito às mútuas relações entre os seres que vivem à nossa volta haverá de se surpreender com o quanto ainda há a explicar sobre a origem das espécies e variedades”.

"I Think"


E foi a responder essas indagações que Darwin se dedicou quando retornou de viagem.

Já conhecido pela comunidade científica e sociedade londrina, depois que suas cartas com relatos da viagem, enviadas ao seu professor, se tornaram públicas.


Interessantes e bem escritas, elas conquistaram o interesse geral e as descobertas que ele relatava geraram debates públicos. O que contribuiu para que, mesmo jovem, Darwin entrasse para o círculo de importantes cientistas e pensadores.


O que foi proveitoso para ele, que por cartas cultivou relação com todos. E os acionou em busca de ajuda para analisar o volumoso material reunido durante a viagem. E foi em uma dessas trocas de informações que a grande ideia veio.


Ao examinar, com ajuda de um colega, amostras de pássaros coletados em diferentes pontos das ilhas de Galápagos, um arquipélago vulcânico do Oceano Pacífico, descobre que apesar de algumas diferenças entre si — principalmente em seus bicos — eram todas da mesma espécie: tentilhões.


Darwin chega à conclusão de que as modificações em seus bicos tinham relação com a necessidade de sobrevivência dessa espécie nos diferentes ambientes em que viviam. E a partir daí, começam os primeiros esboços da ideia de seleção natural.


Um dos marcos dessa fase seria um desenho feito por ele, de algo que se assemelha a uma árvore e suas diversas ramificações. Onde alguns galhos crescem volumosos e frutíferos, representando a evolução e perpetuação das espécies; enquanto outros, que não cresciam, representavam as espécies extintas.


Repare que no topo do desenho ele escreve: “I Think”, em tradução livre: “Eu acho”.

Um registro histórico do seu processo de reflexão sobre a importante tese que formulava em sua cabeça.

Esboço de Darwin da Árvore da Vida - Imagem da Internet

“Uma espécie dá origem, de início, a duas ou três variedades, que são lentamente convertidas em espécies que, por sua vez, produzem em passos igualmente lentos outras espécies, e assim por diante, como se fossem os galhos de uma enorme árvore, a partir de um tronco único"

O receio de publicar


Num contexto em que outros estudiosos já debatiam sobre a evolução das espécies, o ineditismo da ideia de Darwin estava em examinar o detalhe das, nem sempre evidentes, modificações dos seres vivos ao longo dos anos. O que foi possível, pela paleontologia e geologia. E desenhar, a partir disso, a ideia de evolução por seleção natural.


Ele sabia que sua teoria seria rejeitada pela igreja, pela afronta à teoria do criacionismo. Mas, temia que fosse também rejeitada pela comunidade científica, por falta de embasamento. Afinal, suas ideias eram muito revolucionárias para a época e exigiam algum esforço de imaginação para compreender.


Isso porque não havia muitas evidências dos estágios intermediários do processo de evolução. Tudo acontecia de forma muito lenta, ao longo de milhares de anos e muitas vezes passava despercebido e sem deixar indícios.


Ele também estava, com esa teoria, retirando o ser humano do centro, rejeitando a ideia de hierarquias. Ao afirmar que todos os seres vivos vinham de um único ancestral que ao longo de milhares de anos, foram se modificando ao acaso — por conta de diversos fatores, mas sempre para sobreviver — e assim, novas espécies iam surgindo.


Portanto, para garantir que seria levado a sério, define uma estratégia: primeiro construiria sua reputação no meio, enquanto, paralelamente, reuniria as comprovações de sua teoria. Para somente quando estivesse satisfeito com o material que comprovasse sua ideia, publicaria-a formalmente.


Nesse tempo lançou seus diários de bordo no Beagle, que foram sucesso de público e crítica. Cultivou suas relações com outros cientistas e pensadores, buscando não só validação de suas ideias, mas identificar as possíveis contraposições, para descobrir como refutá-las.


Assim, se passaram anos. Até que um dia, imerso em sua pesquisa, recebe uma carta.


O empurrãozinho de Wallace


Já há alguns anos, Darwin vinha preparando uma grande obra que seria publicada em diversos volumes, com detalhes de seu trabalho.


Entretanto, quando recebeu a carta de Alfred Russel Wallace, contando que no meio de um delírio de febre nas ilhas Molucas — onde estava pesquisando sobre a evolução das espécies — chegou a conclusões muito próximas as de Darwin, precisou alterar os planos.


Retirado de sua zona de conforto por essa notícia, ele se vê obrigado a acelerar a divulgação dos seus estudos.


O primeiro passo, por orientação de colegas, foi a publicação de um artigo, assinado em conjunto por Darwin e Wallace, relatando que mesmo sem saber detalhes da pesquisa um do outro, eles chegaram a conclusões muito semelhantes. E por isso, era justo que ambos reclamassem pela autoria da teoria.


Acontece que o artigo não teve muita repercussão, nem causou tanto espanto quanto Darwin achou que causaria. Então, toda essa conjuntura o fez agilizar sua publicação.

Meio às pressas, como cita na introdução do livro, elabora um resumo dos diversos volumes que vinha escrevendo e publica seu livro no ano seguinte à carta de Wallace, em 1859.


Charles Darwin - Imagem da Internet

“Minha obra está quase acabada. Mas, como levarei ainda dois ou três anos para terminá-la, e minha saúde não é das melhores, decidi publicar o presente resumo. Fui levado a tanto, em especial, pelo fato de o sr. Wallace, [...] ter chegado a conclusões quase idênticas às minhas [...]”.



Lançamento de Origem das Espécies por meio de seleção natural


Darwin, que já era bastante conhecido como escritor, desde a publicação do seu diário a bordo do Beagle, quando lança a Origem das Espécies, esgota a primeira tiragem no mesmo dia.

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Primeira edição de Origem das Espécies - Imagem da Internet.

Na obra, que pode ser considerada um longo argumento para comprovar sua teoria, ele explica que por diferentes razões, um ser vivo pode eventualmente nascer com uma variação em sua forma. Algo que anos depois, com o conhecimento da genética, passou-se a chamar de mutação, mas que Darwin chamou de variedade ou descendência com modificação.


Caso essas variações fossem úteis à sobrevivência do ser vivo, elas iam se aperfeiçoando e eram transmitidas para as próximas gerações. Que poderiam, eventualmente, gerar novas variações também e originar novas espécies. “Variedades são espécies em processo de formação, ou, como prefiro chamá-las, são espécies incipientes”.


Já variações que não fossem úteis, se tornariam obsoletas e poderiam deixar de existir, eliminando partes de seres vivos, ou em alguns casos, toda uma espécie. Acontecendo assim, num processo lento, que podia levar milhares de anos, uma seleção natural de quem conseguiria ou não sobreviver.


Sendo o aspecto surpreendente dessa ideia, a de que o ser humano, enquanto um ser vivo qualquer, também evoluiu e sobreviveu por esse mesmo processo. Tendo surgido ao acaso e do mesmo ancestral que outros animais.


“Assim, cada formação assinala não tanto um novo e completo ato de criação, quanto uma cena ocasional, tomada quase ao acaso, de um drama encenado vagarosamente”.


Isso não só retira o ser humano do lugar de superioridade na hierarquia da vida na Terra, como nega a ideia do criacionismo. Sem dúvidas, uma revolução para a época.


O homem diante de sua criação


Apesar de revolucionárias, as ideias de Darwin não chegaram tão longe apenas por seu ineditismo. Ele fez o que pode para se aproximar do grande público.


Seu texto tem uma linguagem bastante acessível, com uma escrita envolvente, de alguém inteligente e apaixonado pelo tema que trata. Quando lançado, o livro foi lido não só por intelectuais e cientistas, mas também por donas de casa, fato que para a época representava o quanto era popular.


Todos estavam interessados nas mais novas descobertas de Darwin, após terem lido seu diário de viagem.

Livro Origem das Espécies, editora UBU - Foto site editora.

Claro que essa atitude, abriu brecha para questionamentos da parcela mais tradicional de cientistas, que julgavam seu texto não adequado aos padrões acadêmicos e que não passavam de relatos de um escritor de livros de viagem…


Mas o fato é que Darwin queria se fazer entender e isso fica evidente em toda a construção de seu texto. Além da linguagem amigável, ele abre sua obra com um capítulo dedicado a aproximar o leitor do tema central da sua ideia, abordando a variação doméstica.


Naquela época — como até hoje — era comum que seres humanos trabalhassem na modificação de espécies, através da procriação doméstica de raças, principalmente visando uso dos animais em trabalho rural. E foi a partir dessa ideia, comum e compreensível a todos, que ele lança o gancho para o que, segundo sua teoria, aconteceria naturalmente na natureza.


Assim, ficaria claro que essas modificações eram possíveis de acontecer, afinal o próprio leitor já haviam feito ou visto isso em animais domesticados. “Por que então, diante da ocorrência de variações úteis ao homem, seria implausível que outras eventuais variações, de algum modo úteis para cada um dos seres na grande e complexa batalha pela vida, ocorressem ao longo de milhares de gerações?"


Ao longo de sua explicação, Darwin também dedica capítulos inteiros a esclarecer possíveis dúvidas do leitor. Ao abordá-las, justifica que ele mesmo as teve em seu processo de criação e compartilha então seus esclarecimentos. Num exercício comprometido com a consistência de sua ideia.


Outro destaque, são os trechos, em que ele humildemente afirma que sua pesquisa não está concluída — mesmo após mais de 20 anos trabalhando nela — e que certamente vários pontos poderiam e deveriam ser refutados pelo bem e evolução da ciência, e da própria teoria.


Com franqueza, também ironiza o quanto o ser humano pensa ter certezas e crê que é o centro do mundo: “Espantosa é a nossa presunção de imaginar, por um momento, que compreenderíamos muitas das complexas contingências das quais dependem a existência das espécies".


Por que ler a Origem das Espécies?


Mesmo já sabendo a teoria, ler essa obra é conhecer Darwin através de sua escrita. Sua escolha de palavras, os trechos irônicos e críticos, sua devoção à pesquisa e sua postura humilde.


Um homem inteligente, que conseguiu não só formular tal teoria, mas unir todas as peças necessárias para comprová-la diante do olhar mais leigo. Sempre esteve ciente de que podia estar errado, de que sua teoria poderia ser refutada.


Mesmo diante de todos os privilégios que possuía, optou por uma vida reclusa, em uma casa no interior com sua família, totalmente dedicado à pesquisa. E após muitos anos de escrita, e um empurrão do destino, publica sua obra mais importante, alegando ser um breve e incompleto resumo.


Se comparado aos vários volumes que Darwin planejava, de fato trata-se de um resumo. Porém, é preciso alertar que a sua preocupação em comprovar os fatos, o fez pegar o leitor pela mão e mostrar-lhe, com detalhes de descrições, todos seus experimentos e descobertas. Criando trechos um tanto extensos, mas que valem ser superados a fim de seguir a linha de raciocínio desse gênio, até o final.


Deixo aqui o link para adquirir o livro e ainda ajudar o Raízes: Origem das Espécies, na Amazon.

 

Curiosidades finais, para quem quer saber mais sobre Charles Darwin:

 
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Obrigada por ler! 🤓

Espero que tenha gostado e se inspirado a ler o livro.

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Nos vemos no próximo texto 🥰



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