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Crítica Literária: A cegueira botânica da humanidade

Atualizado: há 3 dias

Uma reflexão sobre nossa relação com a natureza, a partir do conto O Cachimbo de Felizbento, de Mia Couto.

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Elefante da savana africana no Parque Nacional Maasai Mara, Quênia. (Foto de Tom Stahl/WWF)

Confira a crítica literária a partir do conto O Cachimbo de Felizbento, de Mia Couto.


Diante de uma foto da savana, que exibia um belo pôr do sol e um elefante que parecia estar caminhando lentamente, descobri o que é cegueira botânica. Isso aconteceu durante um exercício simples no qual o professor do curso de botânica pede para a turma descrever a imagem e todos citam a grandiosidade e beleza do elefante, as cores incríveis formadas pelo entardecer e discorrem sobre onde o elefante estaria indo. Alguns poucos comentam: a paisagem também é linda. Paisagem, esse foi o termo escolhido para descrever as diversas árvores, gramas e outras vegetações presentes na foto.


A ideia da cegueira botânica é brilhantemente citada pelos professores Antonio Salatino e Marcos Buckeridge no artigo intitulado “Mas de que te serve saber botânica?” e visa explicar a incapacidade do ser humano em enxergar e reconhecer a importância das plantas. Dificultando em perceber seus processos únicos e as colocando em posição de inferioridade, se comparadas aos animais e outros seres humanos.


Dessa forma, as plantas são frequentemente resumidas a paisagem ou aplicadas como adjetivos pejorativos: "Ah! Aquele ali é planta, não faz nada!" ou então, numa linha mais trágica:"Infelizmente ele ficará em estado vegetativo". Ou seja, quando citadas, reforçamos o quanto as vemos apenas como paisagem, seres vivos que ficam ali parados, sem fazer nada.


Quando, na verdade, é a nossa cegueira botânica, somada ao concreto das cidades, a vida

corrida e agitada, ocupada por telas e superficialidade das redes sociais que não nos deixa enxergar a beleza e funcionamento da natureza. Que, ao contrário de monótonas, as plantas são extremamente ativas e possuem capacidades incríveis, que não conseguimos enxergar devido ao nosso distanciamento delas.


Por isso, quando conhecemos Felizbento, personagem de Mia Couto no conto O Cachimbo de Felizbento, o julgamos como louco. Afinal, quem se recusaria a sair de casa sob ameaça de guerra, só por causa das árvores do jardim? “Se for sair daqui, tenho que levar todas essas árvores", ele decretou. Penso que, decerto, Felizbento viu no seu pomar aquilo que vemos quando conseguimos enfim compreender a natureza.


Compreensão essa que nos livra do perigo de tal cegueira. Uma vez que cegos, nos afastamos da natureza sem reconhecer seu valor. Contribuindo também para a preservação de mecanismos exploratórios, como o excessivo agronegócio e monoculturas. Além de não nos preocuparmos com a poluição, abuso de recursos naturais e consumo desenfreado que gera cada vez mais lixo.


Sabemos que as árvores, assim como as demais plantas, se diferenciam de nós e de outros

animais apenas por serem autótrofas, ou seja, elas produzem seu próprio alimento através da água e da luz solar. Fato que inclusive me parece colocá-las em posição de autonomia superior à nossa, que ainda dependemos de outros seres vivos para sobreviver.


Tirando esse detalhe biológico, estudos científicos realizados ao longo dos últimos anos e

amigavelmente apresentados ao grande público por autores como Stefano Mancuso e Peter Wohlleben, comprovam que elas são formadas por processos complexos e encantadores. Que as permitam compreender o ambiente em que estão, saber o momento certo de florescer e se reproduzir, além de conseguir identificar predadores e agir previamente contra eles. Também armazenam memória, o que as faz dar frutos mais resistentes e adaptáveis. Sem falar em estudos mais modernos que tratam sobre a comunicação e pasmem, visão das plantas.



Não sei se Felizbento conhecia tão a fundo o funcionamento das suas árvores e se foi por isso que não quis deixá-las. Quem sabe, ele tenha descoberto nelas propriedades medicinais tão importantes como a citada no conto O Adeus à Sombra, também de Mia Couto, cujas propriedades medicinais eram “coisa miraculosa, capaz de descrucificar Jesus”.


Ou talvez as árvores poderiam significar para Felizbento um tesouro, o seu tesouro. Assim como a plantação de cogumelos, que, com olhos atentos à natureza, Marcovaldo, personagem do conto Cogumelos na cidade de Ítalo Calvino, encontra na rua. E decide protegê-los até o dia em que seria recompensado por uma bela fritada degustada junto a sua família.


Ou ainda, ele apenas teve tempo de observá-las melhor, a ponto de vê-las crescer, florescer, dar frutos, até o outono chegar e derrubar suas folhas para, na primavera, começar tudo outra vez. Decerto, Felizbento apenas teve tempo de sentar a sua sombra e ter vivido ali importantes memórias com sua esposa. De repente, seus frutos podem ter lhe saciado a fome, dando-lhe forças para sobreviver às dificuldades de Moçambique.


Pelo conto de Mia Couto, não conseguimos saber o que fez de fato Felizbento não arredar o pé de seu quintal, preferindo se unir literalmente a suas árvores a abandonar o local. O fato é que ele, diferente da maioria de nós, estava curado da cegueira botânica e conseguiu ver em suas terras mais do que a paisagem que as árvores formavam.


Que bom!

Deixo aqui o link para adquirir os livros e ainda ajudar o Raízes: Estórias abensonhadas, de Mia Couto, na Amazon - obra na qual o conto O Cachimbo de Felizbento faz parte.

E aqui está o link para demais obras do autor: seleção de obras de Mia Couto.


Se você gostou do tema, não deixe de ler o artigo: Mas de que te serve saber botânica?, de Antonio Salatino e Marcos Buckeridge.


Confira aqui outro texto do Raízes com uma Lista de Livros sobre… Plantas!.


Quem escreve

Adriana Ferreira é de Campo Bom, no Rio Grande do Sul. Formada em Comunicação Social, com especialização em Jornalismo Digital e mestranda em Processos e Manifestações Culturais, com bolsa CAPES e pesquisa nas áreas de literatura, feminismo e interseccionalidade. Idealizadora do Raízes, é quem escreve e publica resenhas, críticas literárias, artigos sobre mercado editorial, dados do livro, incentivo a leitura e mais. Membro fundadora e responsável pela comunicação da Associação Literária de Campo Bom.




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