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Resenha do Livro: A Pediatra, de Andrea Del Fuego

Atualizado: há 1 dia

O livro desconstrói a imagem romantizada de uma pediatra, enquanto revela sua angustiante vida pessoal.

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Confira a resenha do livro A Pediatra, de Andrea Del Fuego publicado pela Companhia das Letras em 2021. ​​


Primeiro contato com a sinopse: “Uma pediatra que não gosta de crianças”, pronto, estamos presos. Um senso moralista, guardado lá no fundo do nosso inconsciente, acende o alerta e logo pensamos: “Como assim? Uma profissional que lida com crianças diariamente, que deveria cuidá-las e protegê-las, não gosta delas? Não pode ser!”.


Acontece que Cecília não é uma médica má. Nem uma pessoa má. Sinto decepcionar e já começar com esse spoiler. Cecília, a pediatra que não gosta de crianças, é uma pessoa normal. Com uma vida bem comum, para não dizer sem graça. E é aí que mora o sucesso da história.

"Ninguém notava que eu tinha pouca vocação e paciência para ser médica, a boa formação garantia que eu não fosse processada, fazia bem-feito o feijão com arroz, procedimentos que qualquer pediatra faz escondiam minha inaptidão".

Durante grande parte da narrativa, estamos dentro da cabeça de Cecília, ela nos conta através de seus pensamentos como vê sua profissão, sua relação com os pacientes e familiares, e também, sua vida pessoal, descrevendo sua relação com o marido, o amante, a empregada, os pais…


E dessa forma, depois de nos deixamos levar pela curiosidade sobre a provável médica do mal, nos surpreendemos com a mulher que ela realmente é. E o quanto podemos nos identificar com ela!


Na maioria das vezes, ela tem pensamentos horríveis (diríamos moralmente), mas muito comuns e naturais, se reconhecermos já ter tido alguns deles também. Na nossa mente, em algum momento, todos nós julgamos, sentimos raiva, inveja, questionamos, apontamos o dedo e nos arrependemos. Mas, na prática, sabemos a hora de respirar e agir segundo a ética, valores e princípios que conduzem nossa realidade.


E, como geralmente acontece na realidade, há um enorme distanciamento entre os pensamentos e as ações de Cecília. Ouvimos sua mente, afinal, estamos em sua cabeça, sem filtro nenhum. Mas também acompanhamos seu dia a dia, no hospital, em casa e com a família, e ela de fato não age como pensa, existe um autocontrole.


Inclusive, controle é a palavra dessa personagem. Por trás de todas as suas atitudes, está uma profunda vontade de controlar o quanto ela vai se envolver em qualquer relação. Imaginando assim poder evitar sofrimentos, decepções e qualquer demanda que possa vir de uma relação mais profunda.



Isso fica evidente quando ela conta como cuida de seus pacientes: só aceita tratar de casos simples, de preferência em estágios iniciais, os quais ela segue protocolos médicos e pronto. Casos crônicos, de tratamentos longos, que exigem um acompanhamento e podem criar um vínculo com o paciente e a família, ela não atende.

"Fico distante nas consultas e não retorno às chamadas até que os pais resolvam conhecer outro pediatra. A demanda nunca cessa, tem paciente pra todo mundo, prefiro novos a fazer manutenção dos antigos".

Assim ela é com tudo e todos, seu desejo de controle a mantém presa no superficial, no mais fácil. Quando a coisa começa a complicar, ela se afasta e esse suposto distanciamento dos outros a afasta dela mesma. O que a torna uma mulher sem vida própria, amigos, lazer, diversão, passatempo, sem contato com nenhum tipo de cultura ou arte.


Só trabalha e cuida da vida dos que estão ao seu redor, julgando tudo com pesos e medidas diferentes dos que usa na sua própria vida. Talvez pela própria ignorância de si mesma, julga a promiscuidade da empregada, mas não vê a sua própria, como a médica que acompanha o parto do filho do amante. Persegue a doula, que supostamente rouba seus trabalhos, fica obcecada por uma criança, que julga ser mal cuidada em casa, e pensa ser justificável tirá-la dos pais.


Podemos supor que todo o processo que envolve uma obsessão seja o combustível dessa vida vazia. Mas, também não. Logo percebemos que, depois de conquistar o objeto desejado, o interesse dela some, como uma criança mimada que quer muito um brinquedo, mas quando ganha para de brincar.

"Eu transava com um idiota, merecia mais suspense, por que eu não cultivava amigas em vez de tomar cerveja com a empregada? Namorado em vez de amante, um filho que fosse meu. Mas eu teria que gostar dessas pessoas, esse elenco atual eu podia botar na rua sem dar satisfação".

Comportamento esse que a retira do lugar de médica má e a coloca no lugar de imatura, com várias questões emocionais para cuidar. Ao mesmo tempo que reconhecemos nela uma mulher independente, segura de si e de suas decisões, vemos sua íntima solidão e insegurança.


Assim, Cecília, “A Pediatra”, nos leva para um passeio de montanha-russa, em que gostamos e desgostamos dela muito rapidamente. Se estamos a ponto de entendê-la e quase nasce um fio de empatia, na outra página já nos arrependemos e damos como um caso perdido.


É um livro para passar raiva, dar risada e no fim, sentir que não entendeu nada, mas tudo fez sentido. Sabe?


Deixo aqui o link para adquirir o livro e ainda ajudar o Raízes: A Pedriatra, na Amazon.



Quem escreve

Adriana Ferreira é de Campo Bom, no Rio Grande do Sul. Formada em Comunicação Social, com especialização em Jornalismo Digital e mestranda em Processos e Manifestações Culturais, com bolsa CAPES e pesquisa nas áreas de literatura, feminismo e interseccionalidade. Idealizadora do Raízes, é quem escreve e publica resenhas, críticas literárias, artigos sobre mercado editorial, dados do livro, incentivo a leitura e mais. Membro fundadora e responsável pela comunicação da Associação Literária de Campo Bom.



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