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  • Foto do escritorAdriana Ferreira

Reconhecimentos Literários | Academia Brasileira de Letras — ESPECIAL MULHERES NA ACADEMIA

Atualizado: 21 de dez. de 2023

Fazer parte da Academia Brasileira de Letras e participar do seleto grupo de intelectuais, que se autointitulam imortais, é um importante reconhecimento literário dado pelo conjunto da obra e carreira de escritores nacionais. E no terceiro texto, vamos abordar a presença das mulheres na instituição.

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Escritoras Mulheres na ABL | Foto reprodução www.literatura-brasileira.com

Conheça aqui o funcionamento da Academia Brasileira de Letras, mais um Reconhecimento Literário do Brasil.

 

Esse texto foi construído com base em pesquisa realizada no site da ABL, notícias, reportagens e conteúdos de outros portais, sobre a instituição e seus membros.

E pretende dar um panorama da Academia Brasileira de Letras, de forma clara e acessível, para quem gosta de literatura e quer aprender mais sobre a principal instituição do setor.


Para facilitar sua navegação pelo texto, deixo aqui os tópicos abordados com link de acesso rápido:

Devido à extensão do conteúdo, optei por dividi-lo em duas partes. Confira aqui a primeira parte e segunda parte.

 

A mulher na academia de letras


Muito se comenta sobre a diversidade dentro da ABL. Faltam escritoras mulheres, negras, indígenas, LGBTQIA +, só para citar alguns dentre tantos grupos minoritários que não possuem representantes na academia. Entretanto, a ausência das mulheres chama a atenção não só pela falta de representatividade, mas também por terem sido explicitamente proibidas, por regra no estatuto, a fazerem parte da ABL.


Ao longo de 125 anos de existência, apenas 9 mulheres passaram pela casa, sendo que a primeira delas pode entrar para o distinto grupo após 80 anos da sua fundação. Por outro lado, a história nos diz que uma mulher participou da idealização da ABL, sendo excluída do grupo de membros fundadores oficiais apenas pelo fato de ser mulher.

Vamos conhecer essa e outras histórias envolvendo as mulheres na Academia Brasileira de Letras.


De portas fechadas para as mulheres


Negar a entrada de uma intelectual à ABL, simplesmente pelo fato de ela ser mulher, faz parte da história da instituição. Segundo registros, a escritora Júlia Lopes de Almeida fazia parte da comissão fundadora da ABL, mas não teve sua cadeira entre os 40 imortais fundadores. O motivo? O clubinho não aceitava mulheres.

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Escritora Júlia Lopes de Almeida | Foto reprodução Wikipedia

Na época, Júlia já tinha livros publicados, participou dos encontros preparatórios para a fundação da academia, inclusive recepcionando algumas dessas reuniões em sua casa, por isso teve seu nome cotado para ser uma das imortais na inauguração. Porém, teve seu nome cortado sob o argumento da instituição brasileira seguir o modelo da Academia Francesa de Letras, que não permitia a entrada de mulheres. Como forma de "homenagear" Júlia Lopes de Almeida, os imortais fundadores elegeram o marido da escritora como um imortal fundador. Assim, Filinto de Almeida, poeta português, residente no Brasil entra para a ABL em 1897.


O acontecimento chegou a gerar algumas críticas, inclusive de alguns membros. Mas nada tão relevante e capaz de provocar alguma mudança. Prova disso, é que em 1930, 33 anos após a fundação da ABL, a advogada, escritora, jornalista e pioneira na luta pelos direitos das mulheres no Brasil Amélia Carolina de Freitas Beviláqua teve sua candidatura rejeitada pelo mesmo motivo. A justificativa, teria sido o trecho do estatuto que determinava quem poderia se candidatar: "brasileiros que tenham, em qualquer gênero literário, publicado obras de reconhecido mérito ou fora desses gêneros, livros de valor literário". Alegaram os membros, que o termo "brasileiros" restringia os membros a pessoas do gênero masculino.


Anos mais tarde, foi a vez de Dinah Silveira de Queiroz receber um não da academia. A romancista, contista e cronista brasileira teria sua candidatura negada sob mesma justificativa das que a antecederam. Entretanto, a fim de não gerar mais dúvidas e esclarecer a proibição de mulheres na ABL, impedindo novas candidaturas de escritoras, os membros optaram por realizar uma alteração no estatuto. O trecho após a alteração teria ficado assim: "os membros efetivos serão eleitos, dentre os brasileiros, do sexo masculino…"


Apesar do conservadorismo e discriminação da instituição para com as mulheres escritoras, nem todos os membros concordavam com essa postura. Dentre esses membros, o destaque vai para Oswaldo Orico. Há registros de que desde a década de 60 ele vinha pedindo que a comissão discutisse sobre esse trecho do estatuto. Porém, somente em 1976 ele consegue apresentar uma proposta formal de alteração do estatuto, que ainda passou alguns meses em discussão até ser finalmente aprovada.


Dessa forma, em outubro de 1976, quase 80 anos após sua fundação, o novo estatuto entra em vigor sem restrições para a entrada de mulheres na ABL. Há quem diga que os membros foram mais receptivos a discutir o tema, não pela insistência de Oswaldo Orico, tampouco por entenderem a importância da representatividade na casa; mas sim, por terem um nome de uma importante e influente escritora, amiga de muitos membros, em vista para entrar na casa.


A primeira a entrar


A entrada da primeira mulher na ABL acontece em 1977, após 80 anos de existência da instituição e menos de um ano após a alteração do estatuto. Rachel de Queiroz é empossada e passa a ocupar a Cadeira 5, na sucessão de Cândido Motta Filho, sendo recebida pelo Acadêmico Adonias Filho.

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Posse Rachel de Queiroz na ABL | Foto reprodução Wikipedia

Escritora, cronista e jornalista cearense, Rachel de Queiroz escreve desde a adolescência e publicou seu primeiro livro aos 19 anos de nome "O Quinze". Mesmo com sua relevância literária e sua entrada na ABL sendo um marco histórico para as mulheres na instituição, a nova imortal acabou causando diversas polêmicas.


Na vida particular, a escritora sempre foi muito ativa politicamente, se associou a partidos e chegou a ser perseguida durante a ditadura. Com familiares e amigos próximos tendo importantes cargos políticos na época de sua entrada para a ABL, o real motivo da abertura da casa para uma mulher era bastante questionado. Outro tema que gerou bastante debate na época, antes de sua posse, foi a discussão sobre a sua roupa. Qual seria a veste da primeira mulher da ABL? O tema foi tão debatido que beirou a piada, uma vez que nada deveria ser mais importante do que a obra de Rachel e o fato marcante de ser a primeira mulher a ser aceita.


Já no dia da posse, aos olhos do público e da imprensa, a decepção. Muito se comemorava pela entrada da primeira mulher à instituição e a expectativa para a solenidade era enorme, porém o silêncio ou indiferença do discurso de posse de Rachel sobre o tema, chamou muito a atenção. Depois, quando o acadêmico Adonias Filho faz seu discurso de recepção, também não comenta nada sobre o marco histórico.


Rachel sempre faz questão de se portar e ser vista como igual e não querer utilizar o fato de ser mulher como forma de diferenciação profissional. Apesar de não se dizer feminista, tinha uma visão progressita e tratava em seus textos sobre os direitos e liberdades femininas. Nesse vídeo do Arquivo Nacional, temos imagens de sua posse na ABL seguida de um comentário da escritora sobre a importância da educação para a emancipação das mulheres.


Nos bastidores, a aceitação de Rachel na Academia era vista como pura politicagem e nada teria a ver com a evolução de pensamentos dos membros. Osvaldo Orico, que há anos defendia a alteração do estatuto pedindo a retirada da restrição às mulheres, alega que finalmente os membros decidiram discutir o tema devido à forte campanha do acadêmico Adonias Filho. Ele, assim como outros acadêmicos, eram amigos de Rachel de Queiroz e tinha interesse nas boas relações e influência que a escritora possuía com importantes políticos da época. Orico, chega acusar a ABL de uma troca de favores com setores políticos.


O fato é que após a entrada de Rachel de Queiroz, a porta ficou aberta para que outras mulheres ingressassem na academia. Ainda de forma tímida e bastante seletiva é essa a relação de escritoras que tiveram sua chance na academia:

  • Dinah Silveira de Queiroz romancista, contista e cronista brasileira, que teve sua primeira candidatura rejeitada, mas foi aceita em 1980;

  • Lygia Fagundes Telles advogada, romancista e contista, foi a terceira mulher aceita em 1985;

  • Nélida Piñon jornalista e escritora, aceita em 1989;

  • Zélia Gattai escritora, fotógrafa e memorialista, aceita em 2001;

  • Ana Maria Machado jornalista, professora, pintora e escritora, aceita em 2003;

  • Cleonice Berardinelli, professora universitária especialista em literatura portuguesa, aceita em 2009;

  • Rosiska Darcy jornalista, escritora, aceita em 2013;

  • Fernanda Montenegro, foi a mais recente acadêmica escritora mulher, aceita em 2021. Sua entrada também marca a abertura da academia para uma artista popular, com uma carreira consolidada como atriz.

Aqui uma entrevista da escritora Rachel de Queiroz no Programa Roda Vida, em 1991 ela comenta sobre sua entrada na ABL. Veja o vídeo aqui aos 45min. Na entrevista, Rachel comenta o fato de ter sido a primeira mulher a entrar para a ABL dizendo "Eu não tive culpa" e conta um pouco dos bastidores de sua eleição. Ela realmente não vê sua entrada para a academia como uma conquista das mulheres, é bastante interessante ouvi-la sobre o tema.


Ainda têm muitas para entrar


Ao todo nove mulheres passaram pela ABL, em um grupo de 40 integrantes que se renovou diversas vezes ao longo de 125 anos. É sem dúvida um número muito pequeno. Se pensarmos em mulheres negras então, nenhuma nunca fez parte da academia. Muitos sentem falta de nomes de importantes escritoras como ​​Clarice Lispector, Cecília Meireles, Hilda Hilts entre outras que nunca tiveram sua chance, apesar da importância de suas obras para a literatura brasileira.


Diante da falta dessa diversidade dos membros, em 2018 quando uma cadeira da ABL ficou vaga, a jornalista Flávia Oliveira resolveu se manifestar através de sua conta no Twitter: “Eu voto em Nei Lopes e Martinho da Vila. Sem falar na Conceição Evaristo. ‘Tá’ faltando preto na Casa de Machado de Assis”. Não demorou muito para a ideia ganhar visibilidade e ganhar apoiadores na rede social. Com isso, fãs da escritora Conceição Evaristo se mobilizaram criando dois abaixo-assinados e a hashtag ConceicaoEvaristonaABL, em favor de sua candidatura.


Ao saber da mobilização nas redes sociais a escritora, ainda surpresa, se motivou a apresentar sua candidatura, que foi formalizada em maio de 2018. Porém, ela a fez à sua maneira, cumprindo apenas os protocolos descritos no estatuto, sem realizar toda a politicagem prévia, necessária para conquistar os votos dos acadêmicos (explicamos como funciona essa politicagem aqui). E declarou durante uma palestra no Salão Carioca do Livro: "Se eu entrar, não será porque escrevi um ‘Marimbondo’ do Sarney, não. Eu quero entrar porque é um lugar nosso, porque temos direito”. Sua vontade era ser eleita pela relevância de sua obra, apenas.

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Escritora Conceição Evaristo | Foto reprodução O Globo

Conceição Evaristo é uma mulher negra, de origem humilde, nascida em uma favela em Belo Horizonte, que trabalhou como empregada doméstica na juventude para poder se manter. Na fase adulta, se muda para o Rio de Janeiro e passa a trabalhar como funcionária pública na área do magistério. Formada em Letras, é mestre em Literatura Brasileira pela PUC-Rio e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense, com diversas obras publicadas as quais sua qualidade e relevância são inquestionáveis. Além de também ter conquistado diversos prêmios, dentre eles um Prêmio Jabuti, em 2015, na categoria Contos e Crônicas, por Olhos D'Água.


Entretanto, como se sabe, faz parte das regras não escritas da ABL que o candidato faça movimentações paralelas para garantir sua eleição. Frequentar os círculos sociais dos acadêmicos, conquistar um deles como padrinho e promover jantares e eventos antes da eleição acontecer. Como a escritora optou por não seguir esses rituais extra oficiais, e tampouco tinha um padrinho na academia, acabou tendo sua candidatura fortemente recusada, recebendo apenas 1 voto.


Apesar de toda a movimentação na internet, muitos já sabiam que o resultado seria negativo. Tanto pela forma como a escritora resolveu se candidatar, como por acreditarem que uma mulher negra não seria mesmo aceita no clube. Mas, a escritora e seu público também sabiam que sua candidatura colocaria luz na falta de negros e mulheres na tradicional academia. E de fato, esse movimento acabou gerando repercussão, pelo impacto que alguns acadêmicos alegaram sentir e pela cobertura da imprensa. Na época, falou-se que o movimento a favor de Conceição causou pressão e intimidou a ABL, que passou a receber questionamentos sobre a falta de representatividade entre os membros.


Dois anos depois, em 2020, Nélida Piñon, uma das poucas mulheres na ABL e a primeira que chegou à presidência da instituição, participou do Programa Roda Viva sendo questionada sobre a falta de representatividade na academia. Ela diz haver discussões sobre a necessidade de haver mais mulheres e figuras negras na instituição sim, mas sempre escolhidos pela relevância de sua obra e nunca por uma falsa piedade, confira o trecho completo aqui.


Nélida também falou sobre o que achou da candidatura de Conceição Evaristo. Ela alega que não estava no Brasil na época e não teve muito envolvimento nem a oportunidade de conversar com Conceição, mas pelo que acompanhou, o fato da escritora não ter seguido os procedimentos de praxe e não ter feito uma campanha, acabou não sendo considerada. Aqui o trecho completo.


Em setembro de 2021, foi a vez de Conceição Evaristo participar do mesmo programa. Ao ser questionada sobre sua tentativa de entrar na ABL e se pretende se candidatar novamente, ela diz que respeita a academia, mas entende ser necessária uma renovação; e que provavelmente não fará uma nova candidatura, pois acredita que não seria aceita novamente. Acreditando ter feito a sua parte ao causar essa reflexão na ABL e incentivando que outros escritores e escritoras, negras, indígenas e das mais variadas representatividade se candidatem. Trecho completo aqui.



A Mulher mais recente a entrar


A mais recente eleita para a academia foi Fernanda Montenegro. Aos 92 anos, a atriz foi aceita pela academia em novembro de 2020, para ocupar a cadeira 17 que foi de Afonso Arinos de Mello Franco, morto em março de 2020.

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Fernanda Montenegro na ABL | Foto: Danielle Paiva/ABL

Meses antes de sua posse, a atriz comentou sua entrada na ABL em uma entrevista para o Fantástico. Ela falou sobre como a sua eleição deixou a academia mais popular, mais pop como diz, uma vez que ela é uma artista popular. Além disso, comenta sobre a necessidade de representatividade de mulheres e negros na academia e conta quais seus planos após empossada. Assista aqui à entrevista completa.


A posse da atriz ocorreu no dia 25 de março de 2022 sendo transmitida no Youtube da ABL, confira aqui. A solenidade contou com a presença da imprensa e importantes personalidades na plateia. Emocionada, Fernanda leu seu discurso de posse exaltando sua trajetória como atriz de teatro, comentando sua trajetória profissional e como chegou até a academia. Sempre orgulhosa de ser uma artista popular e valorizando não só grandes mestres da literatura como também escritores e roteiristas que lhe presentearam com importantes papéis na dramaturgia. Além de reforçar a resistência da classe artística em um período em que o país sofre a maior desvalorização do setor: "Mas, resistimos. Resistimos. Sempre. Somos eternos" ela disse. Em seguida, Nélida Piñon seria a acadêmica escolhida para fazer o discurso de recepção de Fernanda, entretanto, devido a dificuldades visuais que vem enfrentando, convidou Fernanda Torres, filha da nova empossada, para ler o discurso que havia escrito. Um momento emocionante que embelezou ainda mais a cerimônia, vale assistir!


Então, essa é a Academia Brasileira de Letras


Com a produção desses três textos sobre a Academia Brasileira de Letras pude conhecer e compartilhar como atua a instituição e seus membros, tendo outra visão sobre sua origem e funcionamento.


Como amantes da literatura que somos, nos cabe acompanhar essa importante instituição e compreender sua real influência social e literária para nosso país. Que haja mais renovação e popularização da casa, para que a literatura seja cada vez mais debatida e acessível em todos os níveis da nossa sociedade.

 

 
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Obrigada por ler! 🤓

Espero que tenha gostado e se inspirado a quem sabe se inscrever na premiação! Para mais textos como esse, continue lendo a série Reconhecimentos Literários.

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Nos vemos no próximo texto 🥰



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